segunda-feira, 11 de julho de 2016

Uma artesã (dona Isabel) do São João

Uma artesã (dona Isabel) do São João

Eu separava as bolinhas:
verde-rosa, branquinhas,
umas nem furos tinham, só
tinham a cor do São João.

eu um bobão, que via
minha vó,
e nem sabia o quão grande
ela era/é.

os mais espertos vinham em novembro;
os otimistas: em dezembro;
os inconsequentes em janeiro,
os do carnaval vinham só de mal, já os:
de março, de abril e maio tentavam a sorte,
e as vezes tinham(a sorte).

Ela tinha o material:
tinha agulha,
tinha miçanga,
tinha lantejoula, canutilhos;
ela o talento(e nos seus olhos o brilho da lua).

nem sei se ela furava a mão,
era de dia
e de noite,
pouco antes do São João;
                                            concentrada:

linha subia
agulha descia, era
uma dança,
fora do arraial;                  nos bastidores:

ela já não via o boi,
os risos do boi,
dos brincantes,
as batidas da matraca,
do pandeirão;
ela já não dançava, só com a mãos.


 Miqueias N.





terça-feira, 14 de junho de 2016

Meu Nome não é Antônio


Meu Nome não é Antônio

Ela preferia
Os barbudos míopes, 
Hipsters e alternativos
Com roupas floridas
Que vivem a escutar 
Sons daquele cara 
Que levou o soco no nariz 
De um típico finado, cujo 
O nome dele saía lágrimas 
Como um triste fim 
De um personagem melancólico 
Que se chamava Charlie Brown, 
Que era uma criança que tinha como 
seu melhor amigo, um cachorro 
Que escrevia poesias numa máquina de datilografia, 
Em cima da sua casinha.

Poderia ser um daqueles caras, 
Mas troquei a palavra alternativo
Para o inglês underground,
Por isso, 
Minhas maneiras não a agradam,
Pena que li Sartre, e ele me falou
Que sou dono de minhas escolhas
Associado a peso das consequências que
Vem junto como um Kit de brinquedos.

Ah, mas por que não concilia?
Caras assim como ela mais ama,
Conheço muitos, teve um dia
Que um me admirou por eu gostar
Daquele filme chamado Laranja Mecânica,
Ele até me perguntou se eu era Cult,
E eu respondi imediatamente
mandando o cara tomar no cu.

Tudo bem, sou ignorante,
Entendo que mulheres como ela
Gostam de homens mais humanas,
mas sou apenas um leitor
  
de poesias escritas 
Por um velho sujo, e 
Não pelo Antônio
Que ela tanto ama. 
 
O pior que ainda por cima,
a minha literatura era suja, e
Eu bebia fogozada quase todo dia
Em vez do vinho que ela tanto me pedia,
Mas não era o gaúcho, tinha que ser Panu.

Isso me dava uma raiva,
Então eu tive que sair dela,
Rasguei outras poesias sobre ela,
Mas com dor no coração,
Pensei até em ter o poder de Bowie
Para ser um camaleão,
Entretanto, não dava
Mais para tentar,
E refletindo bem,
tem sentido dela gostar
De certas modas e
De homens barbudos assim tão descolados
Em universidades federais, pois o nome dela
É Ana Júlia, e a sua estação
Preferida é a primavera,
Mas não essa que está nos meus cabelos,
E sim daquelas que brotam flores
na barba dos homens que
Ela tanto ama como o Giz
Da Legião Urbana.

- Rey 
Foto: Tarcila Virtuozo 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

o homem

o homem


o homem se encontra no coletivo o homem perde-se no individualismo o homem se ver no coletivo o homem não reconhece o outro homem no individualismo ele compete pra ver quem é o mais pica grossa o homem flui no coletivo feminino concilia o homem estraçalha no individualismo passo por cima do outro homem a 300 por hora no asfalto quente com gasolina, estatísticas, publicidade prédios, prédios, prédios, condomínio fechado, capital , barbarie, poder, segrega o homem caga, chora, perdoa, ama, divide o rango, a xila, congrega no coletivo evolui nossas mães nos abracam com afago o homem passa desodorante asséptico gourmet paga porta de entrada no individualismo coletivo flauta doce individualismo buzina agonia coletivo afeto individualismo eletivo.



- DIEGO PIRES









quinta-feira, 12 de maio de 2016

NÓS QUE ACREDITAMOS

NÓS QUE ACREDITAMOS












































 amanheço o sol mesmo na sombria cremação
de nossa frágil liberdade.
ontem por muito satisfeito caminhei depois de 
uma singela conversa entre amigos.
dizíamos:
nós não somos livres!
nós não somos livres!
me alegrava a consciência dos meninos.
houve um poema sério dito e feito:
esperançamos andar sob o sol sem medo.
esperançamos andar sob a lua sem medo.
esperançamos andar sob a escuridão.
esperançamos andar sob a margem como.
se no
centro.
na ilha se fez mas em outro canto sem mar.
havia um poema a ser feito.
porém.
uma carta de morte se escrevera. ontem.
sob a mistica dos versos.
havia um poema a ser feito.
um poema se escreveu antes.
um poema por não-poetas.
antes que o papel fosse ferido pela
ponta da caneta. era - é um poema de dor.
rangeu - se os dentes no word. pairava sobre
nossos ombros. os fardos pesados.
onde está jesus?
havia um poema a ser declamado.
antes um pastor assenhorou um discurso
era a nossa perda. ouvir. há um tempo: o
que temos deve ser alimentado não minado.
havia um poema a ser feito.
porém poetas amanheciam chovendo.
haviam poemas a serem feitos.
antes fizeram poemas pelos poetas.
há um poema a ser feito.
gritemos agora:
há um poema a ser feito.
há um poema a ser feito.
há um poema a ser feito.
por poetas não por deputados.
gastou - se no espaço. dos nosso abraços.
era a morte da utopia. nos movia agora morta.
renascendo agora sob o signo da ocupação.
por justiça. por:
cajueiro. messegana. terra firme.
pela rua.
escolas públicas. câmaras.
aqui onde todos procuram
está nossa esperança.
há um poema a ser feito.
há um poema a ser feito.
há um poema a ser feito.
por todos nós. nós que acreditamos.
faremos uma música de esperança.
onde brilha o sol no mel de meus olhos.
enquanto um golpe me espanca.
vamos lá, passar por estes frios.
frios dias. com esperança veremos
o sol brilhar. o sol brilhará sob nossa
ilha! nossas filhas. ofuscará o padrão.
enfim seremos livres. nós que acreditamos.

Paulo Freire - pf;


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Coração Intermitente


Coração intermitente

Eu prefiro que se cale! Que sufoque dentro do peito Esse coração demente Prefiro que delire a mente em um silêncio mórbido Ao invés de gritar e declarar amores
Eu prefiro ranger os dentes E fechar os olhos E cerrar os punhos do que ceder, sem hesitação, e manchar esse belo quadro com demasiadas cores.
Eu prefiro recusar sabores E fugir E implodir E fugir de novo Reduzindo as dores
Eu prefiro não preferir E morrer na superfície mudo e sem intenção. Levando apenas no coração um sentimento inexplorado um cenário intocado e sem atores.
Hiago Chistian


quinta-feira, 28 de abril de 2016

PRESO NA CHUVA

Preso na chuva

Dia de chuva
semana de lágrimas
derrama a cachaça
no desconforto da alma
Desbravo a esquecida gaveta
de minha infância
buscando vida e significados
na memória
intima a dor que sinto
coleciono fantasmas que
me acompanham no sono
na lembrança
de vestido branco, seguindo a música, o ritmo, a dança.

- Paulo Ricardo







quinta-feira, 14 de abril de 2016

Desabafo

Desabafo
Histórias de tantas Ana's, Joanas que a cada esquina chora aos prontos em cada esquina uma memória, um abraço manchas de sangue De gangues que se confrontaram, e no silêncio da noite as Ana's e joanas sentiram no coração a dor da partida repentina dos seus embriões. Laços desatados, pelo tiro da . 40 do soldado recém formado. Lembranças de Ana do seu filho que nos domingos jogava bola no campinho do bairro.
Da periferia ouve-se tiros todos os dias. e as lágrimas e clamores das mães, com seus corações na mão e nenhuma delas sabe por qual razão, onde foi que elas erraram na criação.
Até onde e quando vai a separação e distinção da "periferia" com a dita "civilização"? Uns andam de terno e gravata, outros de bermuda e descalço Enquanto uns apreciam a orla marítima, as ondas do mar. Outros a vê-la invadir suas casas, palafitas, altas, edifícios em cima de tábuas.
Educação jogadas as traças, sem livros, sem merenda, sem paredes ou teto. Desvalorização do professor, desrespeito com o aluno Com o futuro da nação. Vândalos ainda depredação as escolas, em que seus filhos, sobrinhos e netos frequentam.
Quem é o verdadeiro alvo dos ladrões? O trabalhador que anda de ônibus, que trabalha o dia todo pra ganhar um salário mínimo pra encher a boca de cinco filhos. "Pobre lascado", sem saneamento básico. Mas um marginalizado.
Nos corredores do Socorrão agoniação, só quem já andou por aqueles corredores sabe a sensação. Corpos lado a lado no chão, em cadeiras ou macas sem condições. Cheiro forte de éter, sangue no chão, pessoas aflitas Esperando a salvação!
A passagem aumenta, em uma cidade sem infraestrutura os ônibus caindo aos pedaços, goteiras dentro do busão, crateras no chão assaltos, pessoas pulando pela janela. Um assalto a cada giro da catraca.
E a história se repete, como há 30 anos atras. Mas as revoltas não são mas as mesmas, hoje revolucionário é tachado como vândalo e desocupado. A população mesmo reclama por chegar tarde no trabalho: Culpa desses desocupados que ficam interditando as ruas, não vai levar em nada! E realmente, com esses pensamentos, não vai levar em nada.
Poema sujo, mas um desabafo.

Adriana Dias