quinta-feira, 28 de abril de 2016

PRESO NA CHUVA

Preso na chuva

Dia de chuva
semana de lágrimas
derrama a cachaça
no desconforto da alma
Desbravo a esquecida gaveta
de minha infância
buscando vida e significados
na memória
intima a dor que sinto
coleciono fantasmas que
me acompanham no sono
na lembrança
de vestido branco, seguindo a música, o ritmo, a dança.

- Paulo Ricardo







quinta-feira, 14 de abril de 2016

Desabafo

Desabafo
Histórias de tantas Ana's, Joanas que a cada esquina chora aos prontos em cada esquina uma memória, um abraço manchas de sangue De gangues que se confrontaram, e no silêncio da noite as Ana's e joanas sentiram no coração a dor da partida repentina dos seus embriões. Laços desatados, pelo tiro da . 40 do soldado recém formado. Lembranças de Ana do seu filho que nos domingos jogava bola no campinho do bairro.
Da periferia ouve-se tiros todos os dias. e as lágrimas e clamores das mães, com seus corações na mão e nenhuma delas sabe por qual razão, onde foi que elas erraram na criação.
Até onde e quando vai a separação e distinção da "periferia" com a dita "civilização"? Uns andam de terno e gravata, outros de bermuda e descalço Enquanto uns apreciam a orla marítima, as ondas do mar. Outros a vê-la invadir suas casas, palafitas, altas, edifícios em cima de tábuas.
Educação jogadas as traças, sem livros, sem merenda, sem paredes ou teto. Desvalorização do professor, desrespeito com o aluno Com o futuro da nação. Vândalos ainda depredação as escolas, em que seus filhos, sobrinhos e netos frequentam.
Quem é o verdadeiro alvo dos ladrões? O trabalhador que anda de ônibus, que trabalha o dia todo pra ganhar um salário mínimo pra encher a boca de cinco filhos. "Pobre lascado", sem saneamento básico. Mas um marginalizado.
Nos corredores do Socorrão agoniação, só quem já andou por aqueles corredores sabe a sensação. Corpos lado a lado no chão, em cadeiras ou macas sem condições. Cheiro forte de éter, sangue no chão, pessoas aflitas Esperando a salvação!
A passagem aumenta, em uma cidade sem infraestrutura os ônibus caindo aos pedaços, goteiras dentro do busão, crateras no chão assaltos, pessoas pulando pela janela. Um assalto a cada giro da catraca.
E a história se repete, como há 30 anos atras. Mas as revoltas não são mas as mesmas, hoje revolucionário é tachado como vândalo e desocupado. A população mesmo reclama por chegar tarde no trabalho: Culpa desses desocupados que ficam interditando as ruas, não vai levar em nada! E realmente, com esses pensamentos, não vai levar em nada.
Poema sujo, mas um desabafo.

Adriana Dias



terça-feira, 12 de abril de 2016

Talvez Seja

Talvez Seja


Nunca se vicie com a eternidade,
Lembre-se bem: O nosso corpo
Tem prazo de validade,
Talvez nunca se sabe
Aonde a nossa alma vai parar
Quando os vermes
Comerem a nossa carne.
Então, questione a eternidade,
Enquanto a carne funcionar.

Depois que tudo acabar,
Os dados vão ser jogados
No cassino cético,
E a probabilidade vai nos dizer
Se os nossos números vão ser aceitos ,
Mas não pense no paraíso,
E muito menos o inferno,
Pense em um lugar
Cheias de lápides
Sem destino certo.


- Rey 

foto - Paulo Freire

domingo, 10 de abril de 2016

A procura de mim mesmo

A PROCURA DE MIM MESMO

No afã do meu insano saudosismo
Brota a melancólica dor da lembrança
Que me faz arder na beira do abismo
Insurgindo-se contra a lógica da esperança

A angústia do presente encontra explicação
Num facto passado ainda não concluído
Num pretérito verbal em sua imperfeição
Da gramática eterna, de um verbo sabido

Quanto mais ainda eu me procuro
Na torrente cronológica do tempo
Intempestivo-me no sabor do momento
Na consciência privada do escuro

Na tensão interna da consciência histórica
Ao objetivar as descontinuidades do tempo:
Demarcações! Linhas invisíveis! Evento!
Sequência causal!
Intenção de verdade? Factual!
Memória, memoração
Datas, narração
Micrologia total
De toda ação
Discurso construído:
Não me contento!

Pensar a vida
a experiência
a verdade dos factos
a vivência
as possibilidades de terem existido
as impossibilidades do vivido
do "se" e do "senão"
o momento em que o instante é banido
as fases do tempo tingido
nasce rejubilosa a harmonia do alento
do profícuo saudosismo de então

E quando mais tarde me encontro
No futuro do presente do modo indicativo
Deflagrando-me com o pretérito imperfeito do subjuntivo:
Coisas passadas dependentes de fatos passados
Minha dor do presente torna-se solidão

David M. N.


sábado, 9 de abril de 2016

Tão bonito

TÃO BONITO (NÃO MEREÇO)

Quando pensei
Que já tinha conhecido
Todas as pessoas que eu poderia conhecer,
Me vem você.

Com um sorriso generoso,
Que talvez nem mereço.
Com um olhar,
Tão bonito que a Deus agradeço.

Vejo em ti, em teu olhar
Um mundo doce que não conhecia.
Em ti, qualquer um pode apreciar
A vida em constante alegria.

O teu céu me faz ver estrelas
Que antes não percebia.
Brilhavam tão perto
E eu, distraído, não via.

O teu jardim me apresenta pétalas
Que até ontem eu não as admiraria.
Pois se não fosse por você,
Eu não as compreenderia.



Brasilino Júnnior



quinta-feira, 7 de abril de 2016

To cansado

To cansado


Cansado de tudo por que nasci De mim que sou assim Dos outros que me queriam diferente Dos meus pais que me fizeram Do cosmo por que ta influindo Do meu signo por ser solar Do chocolate por que engorda Da capes que manda estudar Dos alunos que me fazem ser professor Da musica que nao me ensinou a cantar Do mar que insiste em ser emblematico Dos poetas que resolveram escrever Do dinheiro que nunca fica comigo Dos céus que nao cai sobre nós E claro nao menos importante Da vida que nao nos leva logo To cansado principalmente de ter que escrever.

J.M








quarta-feira, 6 de abril de 2016

A D E S P E D I D A

A D E S P E D I D A

meu poema saca
da varanda de tua vida
no ensejo se despede
minha louca alma varrida

tu, deusa fria
a sorrir pela janela
acena ao meu poema
e sopra: cuida bem dela

que poema leviano!
da minh'alma abusou
fê-la sua criada
a usou que emprenhou

ora, se teu poema singular
fez-te puta parida
o céu há de te expurgar
te vira, alma varrida!

não cais bem nos poemas
teu amor a ninguém serve
hoje só deplora e reza:
que ao menos o diabo
a mim, pobre alma, carregue

ó, musa deste poema
desce já de tua janela
lá em baixo está minhalma
a perecer por teu emblema
deusa fria mais que noite
desce e acende velas
que a desgraça está a fora
a minh'alma falecera


- Luane Macedo


(foto: Tarcila Virtuoso)