terça-feira, 12 de abril de 2016

Talvez Seja

Talvez Seja


Nunca se vicie com a eternidade,
Lembre-se bem: O nosso corpo
Tem prazo de validade,
Talvez nunca se sabe
Aonde a nossa alma vai parar
Quando os vermes
Comerem a nossa carne.
Então, questione a eternidade,
Enquanto a carne funcionar.

Depois que tudo acabar,
Os dados vão ser jogados
No cassino cético,
E a probabilidade vai nos dizer
Se os nossos números vão ser aceitos ,
Mas não pense no paraíso,
E muito menos o inferno,
Pense em um lugar
Cheias de lápides
Sem destino certo.


- Rey 

foto - Paulo Freire

domingo, 10 de abril de 2016

A procura de mim mesmo

A PROCURA DE MIM MESMO

No afã do meu insano saudosismo
Brota a melancólica dor da lembrança
Que me faz arder na beira do abismo
Insurgindo-se contra a lógica da esperança

A angústia do presente encontra explicação
Num facto passado ainda não concluído
Num pretérito verbal em sua imperfeição
Da gramática eterna, de um verbo sabido

Quanto mais ainda eu me procuro
Na torrente cronológica do tempo
Intempestivo-me no sabor do momento
Na consciência privada do escuro

Na tensão interna da consciência histórica
Ao objetivar as descontinuidades do tempo:
Demarcações! Linhas invisíveis! Evento!
Sequência causal!
Intenção de verdade? Factual!
Memória, memoração
Datas, narração
Micrologia total
De toda ação
Discurso construído:
Não me contento!

Pensar a vida
a experiência
a verdade dos factos
a vivência
as possibilidades de terem existido
as impossibilidades do vivido
do "se" e do "senão"
o momento em que o instante é banido
as fases do tempo tingido
nasce rejubilosa a harmonia do alento
do profícuo saudosismo de então

E quando mais tarde me encontro
No futuro do presente do modo indicativo
Deflagrando-me com o pretérito imperfeito do subjuntivo:
Coisas passadas dependentes de fatos passados
Minha dor do presente torna-se solidão

David M. N.


sábado, 9 de abril de 2016

Tão bonito

TÃO BONITO (NÃO MEREÇO)

Quando pensei
Que já tinha conhecido
Todas as pessoas que eu poderia conhecer,
Me vem você.

Com um sorriso generoso,
Que talvez nem mereço.
Com um olhar,
Tão bonito que a Deus agradeço.

Vejo em ti, em teu olhar
Um mundo doce que não conhecia.
Em ti, qualquer um pode apreciar
A vida em constante alegria.

O teu céu me faz ver estrelas
Que antes não percebia.
Brilhavam tão perto
E eu, distraído, não via.

O teu jardim me apresenta pétalas
Que até ontem eu não as admiraria.
Pois se não fosse por você,
Eu não as compreenderia.



Brasilino Júnnior



quinta-feira, 7 de abril de 2016

To cansado

To cansado


Cansado de tudo por que nasci De mim que sou assim Dos outros que me queriam diferente Dos meus pais que me fizeram Do cosmo por que ta influindo Do meu signo por ser solar Do chocolate por que engorda Da capes que manda estudar Dos alunos que me fazem ser professor Da musica que nao me ensinou a cantar Do mar que insiste em ser emblematico Dos poetas que resolveram escrever Do dinheiro que nunca fica comigo Dos céus que nao cai sobre nós E claro nao menos importante Da vida que nao nos leva logo To cansado principalmente de ter que escrever.

J.M








quarta-feira, 6 de abril de 2016

A D E S P E D I D A

A D E S P E D I D A

meu poema saca
da varanda de tua vida
no ensejo se despede
minha louca alma varrida

tu, deusa fria
a sorrir pela janela
acena ao meu poema
e sopra: cuida bem dela

que poema leviano!
da minh'alma abusou
fê-la sua criada
a usou que emprenhou

ora, se teu poema singular
fez-te puta parida
o céu há de te expurgar
te vira, alma varrida!

não cais bem nos poemas
teu amor a ninguém serve
hoje só deplora e reza:
que ao menos o diabo
a mim, pobre alma, carregue

ó, musa deste poema
desce já de tua janela
lá em baixo está minhalma
a perecer por teu emblema
deusa fria mais que noite
desce e acende velas
que a desgraça está a fora
a minh'alma falecera


- Luane Macedo


(foto: Tarcila Virtuoso) 

sábado, 19 de março de 2016

eu não digo tudo

eu não digo tudo

tenho
um poema pra você
um poema antes de ser
um choro engasgado
um latim gasto
um elogio vago
um vocabulário repetido
um égua cheio de sentidos
não me lembro dele, como, desmaio da memória
uma adaga entre a palavra rimada e a garganta
o fio contíguo, o embrião da alma que elevou
outrora a própria alma, desliga-se lentamente.
um descuido de percurso, no limiar das curvas
os peixes saltam os portais, livres águas expurgam
os próprios peixes, seus habitantes.
o mar das águas claras esqueceu dos rios turvos,
ainda mais, das límpidas fontes que nunca correm
caminham lentas pra lá, os embriões  que sabem
seu trabalho, agora são fios que não sabem soltar.
as almas gélidas, saúdam a memória da saudade
e a saudade a própria ação, procrastinar ir além
de ócio e só saudade sentir.
discurso repetido, de novo e de novo, sempre o novo
e o medo, dele os fios, de nós o solto.
ligados a palavra, o fio e o mar rompendo a matéria
indo  lá e voltando cá, uma solta de boi, gado bravo
na extensão do tempo, meu relógio parou, no poema
este vórtice catalizador de pré coisas que vão não ser.
o poema, você o eterno e ir-vir da alma, liga e plaina
sobre a alma, equilibra a alma, desequilibra a alma, e
é a alma, indo e indo, lindo, sendo isso de luz, que a 
alma é, e eu não e oposto sendo e os três não sendo
o poema, o poeta e a poesia, os dois são, agora.
o poema não é.

Paulo Freire





quinta-feira, 3 de março de 2016

Sessenta e seios.

Sessenta e seios.

Os já citados seios de Mariana desenham um número. Número este ímpar, apesar do desenho de dois seis modestos. 66. Quando vendados encegam meus olhos num dia de tara. E quando despidos calculam. E Mariana entende bem de arte e veste renda. E quando puxo a palavra francesa atrás dos pomos, lá está A moldura que me escolheu a moça. Estendo dois éles, um perfeito e outro oposto, avesso, Com a envergadura de quarenta e seis centímetros medidos E eis o quadro de um número, apenas, da grandeza- Colo de desenho em palavra que salivar na boca. Sêxtuplo onze dos algarismos que se temem -Com o perdão da palavra- Nunca tive sede de número e sou “descalculíaco” Nota: Pessoa incapaz de calcular descalça. E quando eu toco a maciez maçã da macieira de teus pomos Entendo Páris. Vênus. Rsrs. Sim. Vênus é a deusa mais bela, sim. Escando um verso para tua boca com um número zero. E desenho o número neutro em cada seis que compões teu busto. Um grande zero oval e vermelho, a mordida. Desfaço os éles, desenho um binóculo, apalpo como cego. E juntando duas curvas eu crio um caminho. Há agora uma bifurcação nas linhas. É uma baladeira, um estilingue, uma pelota, um balim. Bem ali dentro escondido atrás de todo esse caminho É que escondes a destreza do teu miocárdio.Estou na mira.

Justino;